FÓRUM ‘CARTOGRAFIAS POSSÍVEIS’ APOSTA EM REFLEXÕES COLETIVAS E ARTICULAÇÕES EM REDE

Imersos inevitavelmente no tempo do agora, é sempre um enorme desafio analisarmos e compreendermos as implicações dos acontecimentos que vivemos. Temos a sensação que 2020 configura um ponto de virada, como aventou a historiadora Lilia Schwarcz como talvez o ponto de inflexão que marcará o início do século XXI. O fato é que esse ano carregará memórias dolorosas e um assustador número de vidas perdidas para a Covid-19.

Os relatos futuros sobre a pandemia talvez tragam que a quarentena durou bem mais do que quarenta dias, tal como a Guerra dos Cem Anos; quem sabe possam contar que hábitos foram modificados e que a máscara foi adotada pelos ocidentais para evitar transmissões de outros tantos vírus; e, esperamos também que (o quanto antes) seja possível se falar sobre saídas eficazes encontradas para enfrentar o novo coronavírus e as crises econômica e social advindas não só e/ou exclusivamente desse período, mas evidenciadas por ele.

Quando tudo passar, o que ficará? Quais as experiências, fragilidades e possibilidades que a pandemia nos suscitou? Que discussões colocou em evidência? Como usaremos as lições apreendidas? Estamos prontos para construímos o amanhã? E para nos reconstruímos?

Na urgência de identificarmos reflexões que colaborem para outros modos de viver, uma vez que certos “padrões” se mostraram insustentáveis, nos encontramos no “Fórum Cartografias Possíveis: Invenção de realidades socioculturais durante e após a pandemia” que se propôs a debater diversas vivências sociais e culturais de hoje e para o amanhã.

O projeto Cartografias Possíveis teve início no final do mês de julho quando se buscou conhecer iniciativas e agentes socioculturais de Bauru e cidades da região.

Durante a fase de pesquisa mais de 90 inciativas de diversas áreas tais como saúde, artes, esportes, entre outras, colaboraram com o projeto encaminhando relatos sobre suas trajetórias e informações sobre as condições vivenciadas no momento da pandemia. A intenção era aprofundar o conhecimento dos agentes locais que vem atuando a longa data, compreender mais profundamente as dificuldades enfrentadas no contexto atual, mas também conhecer iniciativas que surgiram durante a pandemia e que buscam justamente construir práticas de enfrentamento da deterioração das condições de vida da população.

Realizado entre o final de setembro e o início de outubro, o Fórum abriu espaço para cinco iniciativas convidadas que trabalharam questões sobre Identidade, Comunidade, Saúde, Criatividade e Território.

Ciranda de temas

A cada dia um tema era discutido e duas iniciativas por vez conduziam a mesa redonda virtual criada. Sendo a tela o espaço compartilhado no qual a iniciativa principal apresentava o tema e suas experiências e a iniciativa chamada de secundária abria o debate. Em um movimento ciclíco, como numa ciranda, a cada dia essas posições iam se alternando, sendo a iniciativa secundária de um dia a mesma que seria a iniciativa principal do próximo e assim por diante. Ao final dos cinco dias, a roda se completava com o retorno da primeira iniciativa principal no papel de iniciativa secundária.

Por todo evento se contou também com as presenças da mestre de cerimônias, do mediador e da figura do observador desempenhada por funcionários de outras unidades do Sesc que atuam nas áreas em pauta que traziam aspectos relacionados à discussão central para estimular o diálogo.

Os debates eram divididos em dois momentos, sendo o primeiro chamado de “Diagnósticos” que tratava da apresentação da iniciativa e, o segundo sob o nome de “Invenções” que trazia os desafios vivenciados à tona na busca por propostas e construções coletivas.

Para além dos mapas que contextualizavam a rede de conexões que as iniciativas integram, vídeos traziam depoimentos e bastidores das próprias iniciativas e/ou grupos parceiros. A arte e a poesia abriam e encerravam blocos, enquanto os intervalos eram embalados ao som de músicas do Selo Sesc.

Em tempo real, o público inscrito podia participar da conversa por meio do chat (bate-papo oferecido pela plataforma). Por vezes, também foram convidados a habilitar suas câmeras e microfones e adentrarem às telas e tomarem lugar de fala naquela ciranda.

Mais do que a tecnologia, os assuntos escolhidos foram os responsáveis por conectarem os participantes. Cada tema era um convite ao próximo, formando um círculo de ideias e abrindo um leque de reflexões.

Ilustração: Bruno Müller

Na abertura do Fórum, Paulo Guerra, conhecido como contramestre Tico, e a aluna de capoeira Fernanda Alves da Silva, psicóloga clínica e social, representaram o grupo bauruense Angoleiros do Sertão e trouxeram para a roda virtual o tema da Identidade. Com um resgate temporal falou-se de ancestralidade, diversidade e epistemicídio.

O Angoleiros do Sertão radicado em Bauru tem suas origens em Feira de Santana na Bahia de Mestre Cláudio. Trazem com eles não só a capoeira, mas também o Samba Rural. Enquanto enaltece o papel da capoeira de agregar pessoas de diversas origens em sua roda, Tico se preocupa com o “embraquecimento” dela e reforça que o grupo é guardião de saberes de origem preta que devem ser defendidos e repassados.

Dentro do que chamou de seu próprio privilégio de ser um branco na capoeira, Tico afirmou que sua missão é seguir construindo e reconstruindo sua identidade. Um processo constante. Na mesma linha, Fernanda lembrou que identidade é construída também de forma social, no contato com família, amigos, ambientes como escola e trabalho são bases para que nos identifiquemos ou nos diferenciemos das pessoas com as quais convivemos.

Do chat, saudações “Salve, Salve! Axé”. Do olhar de Angelo Diogo Mazin, da iniciativa secundária, o Assentamento Luiz Beltrame, o destaque para a identificação com aqueles que têm sua origem na resistência, ele compara o “camará” da capoeira ao “camarada” termo recorrente entre os membros do MST, sendo que esse segundo vocábulo carrega o significado “daquele que compartilha o mesmo respirar”; e ele então saúda o capoeirista e a todos por ares e dias melhores.

De expressão libertária de um povo oprimido, capaz de inspirar danças tantas mundo a fora, a capoeira se tornou uma das maiores difusoras da língua portuguesa. Hoje, os Angoleiros do Sertão lutam para manter seu espaço público no Ponto de Cultura na Estação Ferroviária de Bauru.

Luta. Resistência. Ponto em comum que nos leva ao segundo dia de debates. Dessa vez, o Assentamento Luiz Beltrame de Castro, situado em Gália, representado pelo agricultor e historiador Angelo Diogo Mazin conduz a reflexão sobre o tema Comunidade.

Assentamento em si carrega o conceito de comunidade, um território partilhado de forma comum. E, sua existência é herança de uma trajetória que perpassa a história da luta pela terra no Brasil. A concentração de terras nas mãos de poucos ainda é uma realidade difícil de ser quebrada no país. E, não à toa, Diogo enfatiza que sozinho ninguém conquista terra, é necessário o coletivo para se ter força de fazer valer a lei (artigos 185 e 186 da Constituição Federal).

Ilustração: Bruno Müller

De acampados em 2009 para judicialmente assentados em 2014. Atualmente, o Assentamento Luiz Beltrame reúne 77 famílias. E, sua história se entrelaça com a conjectura político-social brasileira. Diogo conta que com os olhares voltados para o agronegócio e a retirada da reforma agrária da pauta governamental, desde 2016 nenhuma nova família por lá foi assentada e, em 2019, foi instaurada uma ação de despejo que atingirá 17 das famílias que pertencem ao Assentamento em Gália.

Exemplificando as contradições do mundo do agronegócio, com uma “Fala clara, objetiva e potente de quem vive na pele, sobre o que fala”, de acordo com a manifestação de Kátia Souza no chat, Diogo conta que enquanto boa parte da balança comercial nacional é do agronegócio, apenas 1% da população brasileira controla cerca de 50% da terra agriculturável no país. E, quando o arroz teve 43% de reajuste em seu preço, o MST doa alimentos em solidariedade aos mais vulneráveis nesse período de enfrentamento do novo coronavírus.

Entre os valores adotados pelo MST estão solidariedade, companheirismos e a produção de alimentos saudáveis. É nesse ponto que a iniciativa secundária, Bem Viver para Tod@s Unesp toca ao relacionar a educação como a base para a construção da sociedade e enfatiza o olhar para a agroecologia.

Aqui, somos lembrados que 2020 não enfrenta apenas a Covid-19 como também luta contra o desmatamento, as queimadas e o desequilíbrio ecológico. E, enquanto nos questionamos se o Planeta irá esperar que “eu” me reeduque amanhã, quando a pandemia acabar ou quando fizer bom tempo, Diogo fala sobre a prática agroecológica que contempla questões sociais ao mesmo tempo que produz um alimento saudável. E, ele nos deixa um alerta: “orgânico não é comida de rico e, sim do trabalhador”.

Assim, falando de vida saudável chegamos ao terceiro dia do Fórum com Marcio Alexandre Cardoso (gestor eixo Movimento Para Tod@s — Unesp Botucatu), Mariana Bighetti e Reverson Monteiro (mobilizadores do eixos Saúde e Cultura para Tod@s — Unesp Bauru) da iniciativa Bem Viver para Tod@s da Unesp encabeçando a discussão sobre Saúde em seu sentido pleno de bem-estar físico e mental que permite total desenvolvimento do indivíduo nas dimensões sociais, pessoais e culturais.

Foi encarando os números preocupantes de adoecimento de alunos, professores e servidores técnico-administrativos que o projeto Bem Viver para Tod@s nasceu em 2017, mas especificamente nos Campus de Bauru e Botucatu e se expandiu.

Ilustração: Bruno Müller

A iniciativa passou a promover ações de fortalecimento de vínculos sociais e de escuta como forma de prevenção. O projeto vem para apoiar e incentivar os coletivos presentes na Universidade, oportunizar experiências, ocupar e revitalizar espaços comuns do Câmpus e acolher e integrar alunos ingressantes que muitas vezes se deparam com uma realidade nova e diferente das suas.

Com a proposta de conectar pessoas com pessoas, pessoas com lugares e suas histórias, eles criaram espaços de convívio e optaram por integrar a saúde holística ao ambiente. Assim, foram realizados eventos esportivos e artísticos como festivais de música, clube de leitura, aula de forró e idas ao teatro, entre outras.

Olhando para o futuro, o projeto pretende expandir suas ações, fechar novas parcerias e ultrapassar “a bolha da Universidade” com eventos além do Campus que possam dar aos moradores a certeza de que a Unesp também é parte da cidade. Enquanto as atividades presenciais seguem suspensas, o online tem mantido o projeto ativo.

Animados com a fala sobre a alimentação saudável do dia anterior, eles já falam em agregar a prática agroecológica ao projeto e quem sabe uma parceria com o Assentamento. No chat, pensamentos surgem e a criatividade segue se transformando em propostas.

É dessa temática inspiradora chamada Criatividade que o grupo Mirante das Artes de Botucatu se debruça no quarto dia de bate-papos virtuais do Fórum. Fazendo jus ao tema e a sua vocação, o arte-educador e circense Fernando Vasques presenteia os participantes com uma canção que narra a história do próprio Mirante das Artes logo de início e ainda intercala suas falas com poesia.

Circo, teatro, dança, música… diversas expressões artísticas em um só espaço, uma trajetória de anos para que o centro cultural Mirante das Artes se constituísse tal como é atualmente com aulas diversas para todas as faixas etárias que vão de práticas corporais à realização de espetáculos.

Ilustração: Bruno Müller

Fernando salienta que as políticas nacionais de incentivo à cultura são escassas tendo ainda algumas poucas resultantes do ministério de Gilberto Gil, mas no geral, há um declínio nos estímulos de 2016 para cá e editais, por exemplo, seguem parados na cidade; portanto, além de talento é necessário resiliência aos artistas.

Nessa constante defesa da cultura, Fernando lembra que de imediato nenhuma política é pensada para os periféricos, então essa é a “nossa luta, cavar espaço para as coisas acontecerem” e chegar a todos.

Na mesma linha, a iniciativa secundária Projeto Caná dialoga sobre o despertar consciente que a arte como meio pode trazer aos jovens, quebrando barreiras e lhes apresentando uma visão ampla do mundo e da vida.

Outra integrante do Mirante das Artes, a arte-educadora e artista da dança Marília Coelho fala sobre a dificuldade de se ter um trabalho contínuo já que “gestões mudam, tudo muda e tem que se recomeçar tudo, todos os diálogos”. Para o futuro, ela deseja transformar o espaço em sustentável e capaz de oferecer aulas gratuitas e não apenas algumas bolsas, ver o “criar” sendo reconhecido como ofício e que atividades formativas atendam toda comunidade.

Enquanto no Chat se levantam apoios “Vamos fazer, nos enlaçar. Estamos aqui na Unesp Bauru para estas conexões”, fala de Andresa Ugaya; Fúlvia, do Projeto Caná se diz esperançosa com a fala do Mirante das Artes e cita Viviane Mosé em sua observação “A vida não se explica, a vida se sente, se percebe. Nós não entendemos e nunca entenderemos o existir, nascer e morrer, então só a arte nos salva”. E, Fernando sentencia, está na hora de seguir o conselho de Mano Brown e “Volta para base, mano”.

Ter para onde voltar, de onde partir. Um lugar, um território. Aqui chegamos ao último dia de debates com a apresentação da assistente social Carla Ávila e da coordenadora pedagógica Fúlvia Goulart do Projeto Caná de Bauru aprofundando a discussão sobre Território.

Um projeto que se desenvolveu conjuntamente com o bairro que escolheu para se instalar, a história do Caná começa 30 anos atrás quando reuniam as crianças do local embaixo de uma árvore para catequisar e ouvi-las. Hoje, atende 170 crianças de 3 a 15 anos. O número era maior antes da pandemia (197), porém, algumas crianças voltaram com suas famílias para suas terras nos últimos meses.

Ilustração: Bruno Müller

Juntos, bairro e projeto foram lutando e conquistando feitos. Envolvidos na Associação de Moradores, comemoraram juntos a chegada da água ao local, bem como da iluminação das ruas e, assim, por diante. O próprio Caná passou de seu Barracão (1995) para sua Sede (2008). E, recentemente, celebraram a legalização do antigo Ferradura Mirim para bairro Vila do Sucesso e presenciaram as entregas das escrituras das casas para as famílias.

O contra-mestre Tico da iniciativa secundária Angoleiros do Sertão, retoma o tema Identidade que abriu a sequência de debates e que se conecta com o atual. Então, fala-se sobre trabalhar identidade na sua complexidade. Ainda que de origem religiosa, o Projeto Caná é laico e trabalha a “brasilidade” termo adotado pela iniciativa ao abordar com seus alunos as questões que se abrem sobre realidades como situação periférica e racismo estrutural, entre outros.

O grande desafio está em mostrar para as crianças que ainda que o lugar onde o indivíduo reside tenha grande relação para sua formação pessoal, elas podem ser protagonistas da própria vida e devem desenvolver seu papel cidadão.

No longo processo de educação social, a missão é fazer com que as crianças e adolescentes se enxerguem e tenham suas identidades fortalecidas para que eles acreditem em si próprios e saibam que devem ser quem são e não permitir que a sociedade padrão os rotule.

A observadora da noite, Lívia M. Silva cita uma fala de Emicida para sintetizar o debate “Tudo que nóis tem, é nóis”, na mesma direção caminha Domingo Fuentes no chat ao expressar “Nós que aprendemos juntos, crescemos”. Então, de um vídeo vem a confirmação do quanto cada passo tem valido a pena no depoimento de um ex-aluno que hoje é pedagogo e do chat vem a palavra de ordem “Vida longa ao Projeto Caná”.

Ao encerrar, o mediador Juarez Xavier aponta que tínhamos muito para deixarmos repercutir em nossas cabeças e era com aquela esperança que ele se despedia. A sala virtual se esvaziou, os computadores se desligaram, mas a reflexão segue acessa em nós.

Daqueles dias levamos os entrelaçamentos e a articulação em rede configurada. Pois, sim, foi do meio do debate que uma iniciativa estendeu a mão para a outra e ofereceu ajudar com as redes sociais do Assentamento Luiz Beltrame, do mesmo modo que o Assentamento fez seu convite para que os Angoleiros do Sertão lá fossem para uma roda de capoeira e samba rural, enquanto a Bem Viver para Tod@s propôs transcrever as receitas para o Assentamento. Trocaram endereços, contatos, inquietações e motivações para novas realizações.

O coletivo é mais potente e os próximos passos já começaram. Estamos conectados, críticos e ativos. Sigamos!